sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Ídolo Também Veste a Camisa 1 - Parte 1

Em 2011, fiz uma minuciosa pesquisa sobre "Ídolos no Esporte" que me serviu como base para eleaborar o meu Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo.
 
A pesquisa detalhou desde o que é ser um ídolo, mostrou qual a importância dele para a sociedade, esclareceu como é ser um ídolo no esporte e, por fim, como é ser ídolo usando a camisa número 1, ou seja, se é possível ou não ser um "herói" atuando como goleiro, a profissão mais ingrata do futebol.
 
A partir de agora, vou replicar neste blog o trecho sobre os goleiros, que escrevi com ajuda dos amigos Rafael Carrieri e Marcos Oliveira, em 2011, em homenagem a todos os goleiros desse planeta, sejam eles amadores ou profissionais. Feliz dia do goleiro.



HERÓI ÀS AVESSAS

Tempos atrás, pouco depois de a profissão de goleiro ser efetivamente inserida no futebol, em 1871, os gordinhos, os fracos, os mais limitados ou aqueles que tinham pouca intimidade com bola é quem atuavam como arqueiros. Para os que não apresentavam claramente o dom de controlar a bola com os pés, o destino era justamente ficar debaixo das traves, como diz o escritor Paulo Guilherme, em seu livro "Goleiros". “Eram as vítimas ideais para a consagração dos que se julgavam os verdadeiros bons de bola. Não pareciam ser capazes de obstruir a consagração dos garotos em busca da glória de um gol”.

Guilherme afirma que o goleiro, durante longo período, teve a imagem denegrida perante seus espectadores justamente por ter a árdua missão de impedir o momento mais glorioso do esporte: o gol. Enquanto o atacante é o grande protagonista dos melhores momentos do futebol fazendo os gols e proporcionando alegrias a seus clubes, ou países, inclusive, o arqueiro tinha sempre pouco a mostrar. Na verdade, “o goleiro está na contramão do futebol”.

“Enquanto os outros dez jogadores da equipe andam para a frente, com o objetivo máximo de marcar o gol, o goleiro vê todo o fluxo da partida seguindo em sua direção, como um gladiador acuado na arena. Até que suas mãos ganham uma elasticidade inusitada e ele consegue esticar a ponta dos dedos para desviar a bola o suficiente para transformar todo o clímax gerado por aquela jogada em uníssono: uuuhhhh! É o goleiro, o estraga- prazeres, o anticlímax do futebol”, ressalta o escritor.

Nos tempos em que a profissão ainda não havia conquistado de vez a graça do público, o goleiro só aparecia na televisão sofrendo gols. Os holofotes eram voltados apenas aos jogadores de linha. Embora atualmente isso tenha perdido a força, Guilherme diz que o goleiro continua enfrentando dificuldades para conquistar um espaço maior dentro do seleto grupo dos privilegiados. “Suas defesas não entram em nenhuma estatística; ao contrário, os números mostram apenas o total de gols sofridos, como se todo o resto do trabalho feito não contasse. E, na maioria das vezes, não conta mesmo” (GUILHERME, 2006. p. 14). Mas isso começou a mudar a partir do momento em que ele, o arqueiro, passou a ser peça fundamental dentro campo. Por ser um jogador cujas obrigações se limitam a evitar que o ataque adversário atinja seu objetivo, o atleta que atua na posição “ingrata”, como diz o autor, tem a possibilidade de aproveitar os momentos pontuais de solidão para desenvolver outras habilidades e funções dentro das quatro linhas, porém sem a bola nos pés - ou nas mãos. Foi dessa forma que o goleiro iniciou sua evolução. Guilherme diz que alguns goleiros tiveram que deixar mais do que o simples suor escorrendo de seus rostos, mais do que o cansaço físico e mental que a profissão exigia, e ainda exige, de cada atleta. Precisou ter um mártir, um predestinado ao sofrimento, um homem que pagasse pelos pecados de uma equipe inteira e que, ao mesmo tempo, suportasse, para o resto de sua vida, o peso de uma derrota em Copa do Mundo dentro de sua própria casa. Conforme explicou Guilherme (2006), precisou existir Moacyr Barbosa para mudar o significado e a importância de um goleiro dentro de uma equipe.
 
O DIA DA CONDENAÇÃO PERPÉTUA
 
O goleiro é, até hoje, um jogador que passa boa parte do tempo isolado em seu espaço. É o atleta mais solitário e o mais cobrado por todos. Um atacante pode perder dez ou mais gols numa partida que não será tão cobrado como um goleiro que comete uma falha. Segundo o livro “Goleiros” (2006), “Até 1950, os goleiros do Brasil estavam acostumados a flertar com a virtude e o pecado, as pequenas vitórias e os sublimes deslizes, em um eterno purgatório que não lhes permitia subir ao céu ou descer ao inferno” (GUILHERME, 2006. p. 101). Mas foi Moacyr Barbosa, um jovem negro ídolo do Vasco, que sentiu na pele a dor mais profunda e a experiência máxima de viver na essência a tal solidão.

E foi no dia 21 de julho de 1950 que, conforme diz Guilherme, a história dos goleiros encontrou seu divisor de águas. “O goleiro Moacyr Barbosa ingressou no seu calvário, do qual nunca mais conseguiria sair. O Brasil perdeu a Copa do Mundo em pleno estádio do Maracanã em uma inesperada derrota para o Uruguai por 2 a 1” (GUILHERME, 2006. p. 101).

Foi dos pés de Alcides Ghiggia que o passaporte de Barbosa para o inferno foi carimbado. Assim como no primeiro gol dos visitantes, o volante Júlio Perez lança em velocidade o ponta-direita Ghiggia que, se seguisse o mesmo roteiro do primeiro gol, teria cruzado a bola para Schiaffino balançar a rede brasileira. Dessa forma, Barbosa, tentando prever a jogada que parecia tão previsível da equipe uruguaia, se adiantou para tentar interceptar o cruzamento. Barbosa não poderia contar era com o chute errado de Ghiggia que enganou a todos, inclusive o arqueiro brasileiro, e entrou no canto esquerdo, num curto espaço entre o pé de Barbosa e a trave.

Como diz Guilherme (2006), Barbosa fez aquilo que era lógico, coerente, algo de muito raciocínio, o que era uma das virtudes do goleiro. Porém, ficou provado que no futebol não existe lógica. E foi a partir daquele momento, num único lance, que o camisa 1 da Seleção Brasileira e do Vasco passou a pagar não apenas os seus pecados, mas de toda uma equipe, ou até mesmo uma nação inteira.
 
“Barbosa não pôde recorrer ao videoteipe. Ao contrário, a imagem que marcou sua vida acabou servindo de prova de um crime a ele atribuído. Um país que desde os tempos de Tiradentes habitou-se a se eximir todas as culpas elegendo um bode expiatório, como se um único cidadão fosse capaz de conduzir uma Inconfidência ou ganhar uma Copa do Mundo, não perdoou o goleiro da Seleção. Barbosa foi transformado no mártir às avessas, no Judas Iscariotes do futebol brasileiro, no traidor da pátria, sinônimo de mau agouro. Foi julgado a revelia e considerado culpado, culpado, mil vezes culpado”. (GUILHERME, 2006. p. 102).
Depois da derrota que o levou à condenação perpétua, conforme suas próprias palavras em entrevista para o canal Sportv, Barbosa passou a servir como a única referência de um homem batido. A imagem que ficou para as novas gerações foi a de um homem levantando-se lentamente depois de sofrer o gol que o perseguiu até os últimos dias de sua vida.
 
 “Os novos torcedores nunca viram uma defesa de Barbosa, nunca testemunharam o goleiro salvando a meta da seleção ou de seu clube, o Vasco. São raras as imagens em que ele aparece mostrando sua incrível agilidade e reflexo para cobrir os ângulos, a velocidade para sair aos pés dos atacantes, a frieza para neutralizar o adversário que aparecia à sua frente”. (GUILHERME, 2006. p. 103).

Mas Barbosa, o paulista que se consagrou no Rio de Janeiro, era valente e jamais perdeu sua dignidade, como citou Guilherme (2006). De acordo com o autor, mesmo depois do fracasso da Seleção Brasileira, o goleiro brilhou com a camisa cruzmaltina. Com defesas incríveis e um posicionamento de causar inveja aos outros atletas da posição, Barbosa levou o Vasco aos títulos de campeão Carioca (1953 e 1958), Torneio Quadrangular do Rio (1953), Torneio Quadrangular do Chile (1953) e de campeão do Torneio Rio-São Paulo (1958).

Guilherme (2006) conta que mesmo depois de ter sua imagem manchada, devido ao episódio que tirou a chance do Brasil conquistar o que seria o primeiro título mundial de futebol, o goleiro continuou a ser ídolo no clube em que conquistou seus títulos. O Vasco reconhece Barbosa e a torcida não esquece de seus feitos.

2 comentários:

Valdir Enzo Bardi disse...

Sensacional as informações do texto Fernando, me diz uma coisa, guilherme foi quem escreveu "Goleiros, Heróis e anti heróis da camisa 1"?
muito bom vou até agendar e deixar como dica na nossa pagina no facebook!

Fernando Richter disse...

Valdir,meu amigo.
Foi sim o Paulo Guilherme quem escreveu o livro. Ele tem muitas informações bacanas. Vale a pena a leitura.

Um abraço,